Trinta-reis-de-bico-preto (Gelochelidon nilotica)
Tulio Dornas
Um registro inusitado chamou a atenção de observadores de aves. O trinta-réis-de-bico-preto (Gelochelidon nilotica), espécie marinha que costuma ser vista em regiões costeiras, foi flagrado em planície inundável na região da Ilha do Bananal e Rio Javaés, na porção oeste do estado do Tocantins, acompanhado por um bando de oito trinta-réis-grande (Phaetusa simplex).
Segundo o biólogo e ornitólogo Tulio Dornas, bolsista do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave), a presença do trinta-réis-de-bico-preto no estado pode estar relacionada a desvios durante movimentos migratórios.
Ave foi registrada junto a um bando de trinta-réis-grande
Tulio Dornas
“Alguns indivíduos acabam ‘errando o caminho’ e adentram para o continente. Muitas vezes alcançam o rio Tocantins ainda na sua foz, no Pará, e sobem em direção ao interior em vez de retornarem ao litoral”, explica.
Embora ainda seja cedo para afirmar com certeza o que provoca esse comportamento, o especialista aponta diferentes hipóteses, que vão desde mudanças climáticas, alterações nas marés e cheias dos rios até possíveis interferências eletromagnéticas.
“Pode ser algo individual, um "erro de cálculo" da ave, culminando na inversão de sentido de migração. Mudanças climáticas poderiam estar relacionadas, afetando a dinâmica de cheia e vazante dos rios ou das próprias marés, levando a ave alterar sua rota de migração. Especula-se na comunidade científica que até mesmo o sistema de internet 5G, hoje abundante no Brasil e mundo afora, possam interferir na migração das aves”, diz Dornas.
Ave estava acompanhada por um bando de oito trinta-réis-grande
Tulio Dornas
“Contudo é importante destacar que são questões ainda muito especulativas que carecem de estudos mais aprofundados”, ressalta.
Registros mais frequentes
Casos semelhantes têm se tornado mais comuns em diversas regiões do Brasil. No próprio Tocantins, a gaivota-alegre (Leucophaeus atricilla) foi registrada duas vezes em Palmas, em 2023 e 2025. Já na Lagoa da Confusão, a observadora Juçara Moura avistou recentemente um trinta-réis-do-ártico (Sterna paradisea).
Gaivota-alegre (Lecophaius atricilla)
Silene Aires
Essas descobertas também podem ser relacionadas com a crescente prática da observação de aves no país. “Com mais pessoas em campo, aumenta a chance de flagrar aves marinhas ou litorâneas em ambientes de água doce. No caso do trinta-réis-de-bico-preto, o registro também contou com a contribuição do observador Luiz Cortez”, destaca Dornas.
Vale mencionar que a espécie se reproduz em áreas continentais da Europa, Ásia e América do Norte, migrando para o litoral da África e das Américas Central e do Sul no inverno. No Brasil, há registros da espécie no Maranhão, Ceará, Paraná, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, além de registros em Pernambuco e Rio Grande do Norte. Entretanto, os registros no país são raros.
Trinta-reis-artico (Sterna paradisaea)
Juçara Moura
Para ele, os sucessivos registros realizados no Tocantins mostram que, no interior do Brasil, há rotas alternativas de migração, executadas por indivíduos vagantes, em detrimento das rotas tradicionalmente conhecidas.
“Esse comportamento migratório vagante não deve ser tratado com espanto ou calamidade. Contudo devemos ficar atentos, pois caso o numero de indivíduos vagantes de cada espécie aumente consideravelmente no interior do Brasil, pode estar sinalizando, por um lado, alguma mudança na qualidade dos habitats marinhos e litorâneas dessas espécies ou até mesmo indicando alguma pista sobre alterações climáticas”, acrescenta.
Impactos e importância científica
Do ponto de vista ecológico, o especialista não vê riscos imediatos nos desvios de rota, já que poucos indivíduos costumam se afastar do litoral. Porém, há uma preocupação relacionada à saúde das aves locais.
Como algumas dessas espécies têm origem em regiões onde circula o vírus da gripe aviária, existe a possibilidade de transmissão ao chegarem às aves do interior. Além do alerta sanitário, os registros são valiosos para a ciência, pois ajudam a mapear rotas migratórias alternativas e entender como fatores ambientais podem influenciá-las.
“Do ponto de vista ecológico são poucos os indivíduos de cada espécie que adentram o continente, de modo que não se esperaria que estes indivíduos afetassem as espécies residentes em suas atividades rotineiras de forrageamento e reprodução”.
Para os observadores assíduos como Tulio Dornas, Luiz Cortez, Juçara Moura e Silene Aires, cada novo registro também é motivo de celebração. Afinal, ver um visitante improvável como o trinta-réis-de-bico-preto pousado em águas tocantinenses é experiência rara até mesmo para os olhos mais atentos.
VÍDEOS: Destaques Terra da Gente
Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente