Estudo da pesquisadora Fernanda Frois dos Santos, da UFSCar, mapeou as ilhas de calor e de frescor presentes na cidade. Ilhas de calor aumentam em Sorocaba; veja soluções para problema de aquecimento global
O sol é visto se pondo no horizonte em Sorocaba (SP). A coloração alaranjada é devida à poluição
Miguel Pessoa/Código19/Estadão Conteúdo
O calor atinge todo o mundo, mas nem sempre na mesma intensidade. Foi o que mostrou o estudo de uma pesquisadora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), do campus de Sorocaba (SP), que mapeou as ilhas de calor presentes na cidade.
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Com um termômetro nas mãos, a arquiteta e urbanista Fernanda Frois dos Santos percorreu todas as zonas de Sorocaba durante uma semana, em junho de 2023, medindo e anotando as temperaturas de cada local para entender quais áreas são mais quentes, quais são mais frescas e quais são as principais diferenças.
"O estudo que a gente já tinha aqui em Sorocaba, que também foi de um aluno da UFSCar, mostrava a diferença de temperatura entre um ponto urbano e um ponto rural. Isso dizia que Sorocaba possivelmente tinha ilhas de calor. O meu estudo foi para buscar onde seriam essas ilhas de calor", explica.
Estudo da pesquisadora Fernanda Frois dos Santos mapeou as ilhas de calor presentes em Sorocaba (SP)
Arquivo pessoal
Segundo a pesquisadora, o estudo apontou que as ilhas de calor de Sorocaba aumentaram consideravelmente nos últimos anos. Para isso, Fernanda comparou os números obtidos em 2023 com os de 2013.
"O que mudou nestes aproximados dez anos em Sorocaba foi um registro de um aumento significativo de ilhas de calor em toda a cidade. Os pontos que chamam mais a atenção são na região do extremo norte da cidade, no início da Avenida Itavuvu. A região do bairro Carandá teve um aumento de população nesse período."
Além de saber onde as ilhas de calor ficam, a pesquisadora queria apontar se o material usado para a construção dos imóveis nestes locais influenciava a temperatura da região. Nesta etapa do estudo, ela utilizou a metodologia dos transectos e um termômetro de temperatura de ar chamado datalogger.
"Utilizamos formas graduais de medição para ver se eram ilhas muito fortes e onde possivelmente teriam ilhas de frescor, que também existem, e qual era a relação das ilhas com as construções do entorno", explica.
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Fernanda comparou os dados da zona norte com os da zona sul, partindo da zona industrial até o bairro Campolim. Depois, fez o mesmo com as temperaturas registradas nas zonas leste e oeste, partindo do Parque Chico Mendes até o bairro Ipatinga. Segundo a estudante, os percursos foram feitos ao mesmo tempo, em carros diferentes, medindo a temperatura minuto a minuto.
"Escolhemos uma área do bairro do Ipatinga que tem bastante vegetação e poucas construções para usar como temperatura de referência. A partir dessa medição, comparamos com as medições dos outros pontos visitados para saber se as demais áreas eram mais quentes ou mais frescas que aquela área rural."
Para não haver qualquer tipo de interferência na medida de temperaturas, o termômetro foi acoplado a uma caixa de ralo, que permite a entrada e saída de ar, e protege em caso de insetos ou chuva: "O termômetro foi preso em uma haste para manter uma distância de pelo menos 50 centímetros do teto do carro. Assim temos uma temperatura mais 'limpa'."
Termômetro foi acoplado a caixa de ralo e preso em haste para manter distância de pelo menos 50 centímetros do teto do carro
Arquivo pessoal
Foi a partir disso que a pesquisa conseguiu apontar, por exemplo, que a região central de Sorocaba é até 4,5°C mais quente do que uma área de vegetação natural.
"Desde a região da Avenida Izoraida Marques Peres, perto dos supermercados e shopping, indo em direção ao Centro, passando pela Rua Comendador Oetterer até a Rua Santa Clara, foi a região mais quente que identificamos."
Outra região de bastante destaque no estudo fica na zona oeste da cidade. Destaque para a Avenida Pereira de Camargo, no Jardim Aeroporto, onde o calor aumentou 4°C. Já na Avenida Itavuvu, próximo à região das indústrias e comércios, a temperatura medida na época foi 3°C acima da temperatura da região rural.
Áreas mais frescas
Os locais percorridos pela pesquisadora que apresentaram temperaturas mais baixas foram:
Começo da Avenida Itavuvu, na altura da Escola Estadual "Salvador Ortega Fernandes": 4°C mais fresco;
Parque Chico Mendes: 1°C mais fresco;
Toda a extensão da Avenida São Paulo: entre 0,5°C e 1°C mais fresco;
Avenida General Osório, na altura do bairro Trujillo: 1°C mais fresco.
Conforme apontado pelo estudo, o frescor ocorre pela cobertura de vegetação e por conta do Rio Sorocaba, que passa próximo às regiões.
Áreas mais quentes
Os locais percorridos pela pesquisadora que apresentaram temperaturas mais altas foram:
Bairro Campolim, próximo a um shopping que fica na Avenida Izoraida Marques Peres: 2,5°C mais quente;
Comendador Oetterer até a altura da Rua Santa Clara: 4,5°C mais quente;
Região das indústrias, na extensão da Avenida Itavuvu: 3°C mais quente;
Avenida Pereira de Camargo até o bairro Wanel Ville: 4°C mais quente.
🔥 O que é uma ilha de calor?
Conforme a pesquisadora, ilha de calor é um fenômeno climático que ocorre em áreas urbanas onde as temperaturas de uma área são superiores às do entorno e das áreas naturais ou rurais.
Além da falta de vegetação, o que as áreas mais quentes da cidade têm em comum é a maior presença de concreto, metal e vidro, que são materiais que absorvem muito o calor e demoram para dissipar, conforme explica Fernanda.
"São áreas que têm bastante concentração desses materiais, como o concreto e asfalto, e que sofrem mais porque têm todo aquele calor sendo absorvido o dia todo e, aí, no final do dia, esse calor é liberado bem aos poucos. Tanto que, para dar certo a medição, tem que ser feita no inverno e três horas depois do pôr do sol, porque no verão os dados ficam mais mascarados. Afinal, todos os dias estão quentes", pontua.
Cidade de Sorocaba (SP)
Prefeitura de Sorocaba/Divulgação
O g1 preparou um gráfico que mostra quais áreas da cidade concentram o maior número de ilhas de calor. Veja abaixo:
🌳 'Ar-condicionado natural'
Em dias muito quentes, qualquer sombra é bem-vinda. Mas, se pudermos escolher, a sombra de uma árvore costuma ser a preferida. Essa escolha é explicada por estudos que indicam que áreas arborizadas são, em média, até 12°C mais frias do que espaços urbanos verdes sem árvores.
Áreas arborizadas são, em média, até 12°C mais frias do que espaços urbanos verdes sem árvores, aponta estudo
Larissa Pandori/g1
Mas as árvores foram perdendo espaços para ruas, avenidas, casas, prédios, postes e placas de propaganda. Em Sorocaba, segundo dados da prefeitura, 25,65% do município são cobertos pelas copas das árvores.
Em 2023, foram plantadas pela prefeitura aproximadamente 6,7 mil mudas de árvores. Em 2024, foram quase 10 mil. Para este ano, a meta é plantar mais 10 mil mudas.
Mas parte do plantio entra como compensação para árvores que receberam autorização para serem cortadas. Em 2023, 5.050 árvores foram cortadas. Em 2024, foram 2.140 exemplares. E em 2025, até fevereiro, foram cortadas 16 árvores.
"A pesquisa também mostrou que temos poucas áreas verdes na cidade. O que a gente tem, basicamente, é um cinturão de área verde no entorno do município. Na região central mesmo, em um conglomerado da população, não tem basicamente nada de área verde."
A falta de cinturões verdes em mais regiões da cidade não afeta apenas o meio ambiente, mas também a saúde dos moradores, segundo Fernanda.
"Constatamos que a umidade relativa do ar em Sorocaba é baixíssima e isso é muito ruim para a nossa saúde. Se fosse utilizado menos concreto, menos materiais que demoram para dissipar o calor, a gente teria espaços externos mais agradáveis. Por que é tão incômodo andar na Avenida General Carneiro, na Armando Pannunzio, por exemplo? Porque são áreas com pouco ou nenhum conforto térmico", analisa.
Avenida General Carneiro em Sorocaba (SP)
Guilherme de Moraes/Arquivo pessoal
A quantidade de área verde recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é de 12 metros quadrados por pessoa. Em Sorocaba, um estudo realizado em 2020 apontou que 61,27% do território da cidade são impermeáveis, ou seja, está asfaltado ou coberto por cimento.
O estudo também mostrou que a área verde corresponde a 33,83% da área territorial e que apenas 10,4% são árvores. O restante são áreas de gramados e arbustos.
"Uma forma de mitigar essas ilhas é a utilização de áreas verdes, ou áreas vegetadas, ou áreas permeáveis, ou até a utilização de materiais que absorvem menos esse calor. Por exemplo, a madeira, a pedra e materiais naturais", orienta a pesquisadora.
E ela complementa: "A gente tem a impressão de que se precisa de muita árvore para amenizar a situação das áreas mais quentes. Mas não é bem assim. Por exemplo, um estacionamento que tenha um solo permeável, um gramado ou piso intertravado já vai ter uma temperatura mais baixa".
Explore o mapa das ilhas de calor em Sorocaba:
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